Perfil

Leandro Assis

“Quando mais novo, sempre me foi apontado que ser do jeito que sou era motivo de vergonha. Ser viado, não poder deixar o meu cabelo crescer; gostar de Sandy & Junior sendo homem, gostar de vestir as coisas que eu visto, ler o que eu leio, fazer o design que eu quero fazer. E, por muito tempo, acreditei que essas coisas poderiam me atrapalhar profissionalmente.”

Como você explicaria, de forma muito pessoal, o resultado do seu trabalho?

No começo dessa vida de designer, eu via composições tipográficas absurdas e me perguntava quando é que alcançaria aquele resultado. Lutei por muito tempo para alcançar um nível de refinamento no meu lettering, mas sempre acabava insatisfeito com o resultado. Existia uma pressão, não era algo que eu fazia de forma feliz. Só conseguia fazer lettering quando algum cliente deixava ou pedia, pois não conseguia achar muito tempo pra praticar fora do trabalho.

O ano de 2018 foi uma época em que eu estava bem infeliz profissionalmente e também não postava quase nada de lettering. Então comecei a pensar em temas para desenhar e passei a postar no Instagram apenas por diversão. Por alguns meses seguidos, postei todos os dias, com um tema por semana. Para facilitar o processo de seleção de palavras para praticar, selecionava coisas que faziam parte da minha vida, como séries, filmes e até gírias! Tudo em português, já que não havia muitas referências de letterings escritos na nossa língua, naquela época. Isso ajudou bastante a encontrar o que eu queria escrever e sobre o que gostaria realmente de falar.

Leandro Assis. Foto por Géssica Hage.

Mas, para conseguir postar todos os dias, eu tinha que fazer numa velocidade maior. Por conta disso, acabei observando algumas coisas sobre mim. Nunca curti ler aqueles livros megateóricos sobre tipografia, por exemplo. Tenho zero paciência para fazer as curvas perfeitas das letras. E, como tinha pouco tempo, acabei encontrando na marra o meu próprio jeito de fazer as coisas. Fui percebendo que aquele era um processo de lettering que eu curtia e, aos poucos, fui-me afastando desse ideal de "curvas perfeitas" — justamente por entender e aceitar o meu processo.

Sempre comento que uso muito da minha ignorância para fazer as coisas do meu jeito. Não fiz Design por ser fã de algum movimento cultural, pois não tive acesso a isso. Fiz por que queria fazer vinhetas pra MTV, entende? [hahaha] E tá tudo bem, não tem jeito certo mesmo. Senti falta de mais pessoas falarem isso pra mim.

Aprendi o que era lettering porque não tinha dinheiro para comprar fontes. Os cursos de lettering eram (e ainda são) caríssimos. Além de ser um setor do Design muito elitista, no qual você vê pouquíssimas pessoas negras como referências. O meu trabalho hoje é justamente sobre não se encaixar, não seguir todas as regras tipográficas e fazer tudo do jeito mais pessoal possível.

Projeto de identidade visual para podcast Bateu. Mais imagens.

Hoje, com todas as mudanças que estamos tendo aqui no Brasil e uma força cada vez maior de histórias e mensagens que exaltam tantos aspectos da diversidade, você acha que já existe uma inclusão maior das pessoas a esse mundo do Design?

De certa forma, sim. Mas ainda longe de ser o ideal. Talvez, para quem não passe por situações de preconceito, possa parecer que a gente está avançando muito. Mas acredito que estamos apenas começando a ter um pouco mais de espaço para apontar o óbvio e ocupar um espaço que deveria ser ocupado por todos.

Diversidade é ver gente de todos os tipos nas tomadas de decisão, incluídas em projetos que envolvam dinheiro e sendo reconhecidas por isso. Não adianta só se lembrar de profissionais LGBTQIA+ quando chega no Mês do Orgulho. Não adianta só contratar preto para projeto maneiro em Novembro.

É preciso diversificar a rede de contatos para poder indicar e contratar pessoas negras para aquele freela que você não pode pegar. Se pessoas brancas não revirem as suas redes e critérios de contratação, pessoas negras jamais terão o mesmo nível de oportunidades para serem excelentes. No mercado existe mais margem para brancos medianos do que para pretos e pretas excelentes.

“Diversidade é ver gente de todos os tipos nas tomadas de decisão, incluídas em projetos que envolvam dinheiro e sendo reconhecidas por isso. Não adianta só se lembrar de profissionais LGBTQIA+ quando chega no Mês do Orgulho. Não adianta só contratar preto para projeto maneiro em Novembro.”

Lettering Sticker Pack por Leandro Assis.

Qual o momento da vida em que você disse "é isso que eu quero fazer"? Conte um pouco da sua história e de como sua carreira evoluiu para o que é hoje.

Sempre fui muito apaixonado por cultura pop, MTV, Capricho, queria fazer parte disso. A minha prima fez Design e eu ficava admirado com as coisas que ela tinha pra fazer de trabalho, pois era tudo muito maneiro e tinha tudo que eu curtia. Quando eu já ensaiava criar uns "layouts" no Paint, ela via o meu sofrimento para fazer algo naquilo e foi me passando alguns dos programas que ela usava na faculdade. Fui aprendendo e vendo que, com aquelas ferramentas, eu conseguia fazer a minha própria revista! O que era praticamente o meu maior sonho: unir todas as matérias de diferentes revistas que eu consumia numa só. Eu entendi ali que queria fazer algo relacionado com design.

Lebassis Notebook. Uma coleção em parceria com Cícero. Veja mais

Depois de um tempo, consegui um trabalho numa produtora de vídeos que tinha uma demanda de design, a criação de capas para montar os DVDs dos eventos. Fiquei ali por um período. Como não conseguiria fazer faculdade depois de terminar o ensino médio, mas também não queria ficar parado, montei um portfólio impresso com as revistas que fiz, mais alguns projetos dessa produtora, e enviei para diversas empresas — achando que estava arrasando.

Felizmente, uma delas respondeu! Era uma agência de publicidade que fazia revistas para shoppings no Rio de Janeiro. O diretor de arte tinha gostado do meu trabalho, apesar de o dono não saber lidar comigo pelo fato de eu não ter diploma acadêmico. Mesmo assim fiquei lá por um ano, mostrei o meu potencial e fui crescendo nessa empresa, fazendo revistas, sites e publicidade. Fui aprendendo fazendo.

Aí a minha tia veio com a proposta de pagar uma faculdade pra mim. Entrei. Mas lidar com a distância entre o trabalho, a faculdade e a minha casa foi tenso. Saía de casa às 6 horas da manhã, só voltava umas 23h e ainda tinha trabalho da faculdade pra fazer. Os primeiros meses foram bem tensos. Teve um dia que eu não aguentei mais e mandei portfólio para duas empresas. Uma delas foi a Hardcuore, onde entrei no primeiro período da faculdade, em 2011. Brinco que fiz duas faculdades juntas: a ESPM e a Hardcuore.

Foi durante esses quatro anos de faculdade e estágio que eu pude entender melhor qual a área do Design que eu mais me identificava, sendo que os projetos que envolviam tipografia e lettering eram os que eu mais curtia fazer. Depois fui sentindo que, para dar um próximo passo, eu precisaria investir mais. Até que decidi sair da Hardcuore e, com um amigo que gostava de ilustrar, montamos nossa primeira empresa, a Relâmpago.

A ideia era que pudéssemos fazer lettering e ilustração em tempo integral. Foi bem doido, pois a gente não tinha grana nenhuma no começo, apesar de já possuirmos alguns clientes e achar que tudo daria certo — e deu. Com aqueles clientes vieram outros novos, uma quase falência e vários projetos legais. Crescemos muito em quatro anos e chegamos numa fase que tínhamos cinco funcionários. Mas no fim, acabei fazendo muito pouco lettering, que era meu objetivo principal para abrir a empresa. Depois fui vendo que essa empresa e a sociedade não faziam mais sentido pra mim.

Aproveitei o sucesso dos letterings que eu desenhava para o Instagram e decidi passar um tempo criando apenas isso, com a grana que guardei durante esse período. Construí uma nova base de contatos e mandei o meu portfólio para pessoas que eu achei que tinham a ver com aquele trabalho. Nos primeiros meses dessa nova fase foi bem difícil, pois não era só trabalho de lettering que aparecia. Mesmo assim, divulgava apenas esse tipo de produção, o que acabou chamando atenção e trazendo mais contatos. Hoje, sinto que faço um trabalho que tem mais a ver com a minha motivação inicial, usando as minhas próprias referências e sendo dono da minha narrativa.

Além de muitas pessoas se inspirarem no seu trabalho, pela originalidade, muitas marcas globais te procuram para fazer projetos que tenham exatamente o seu estilo — algo que pode ser raro na nossa indústria, pois marcas globais têm inúmeras restrições em design. Como esses projetos chegam na sua mesa e como você conduz o resultado para algo que gosta?

É sempre assim: os jobs dessa galera chegam, daí eu piro e acho que eles mandaram e-mail pra pessoa errada! [hahaha]. Eu penso que isso é muito louco, pois sempre achei que existia um jeito certo de se aproximar dessas empresas e não achava que era bem o que eu estava fazendo, por ser algo tão pessoal. Ainda acho que foi só quando comecei a pegar esses jobs maiores que vi que estava fazendo um trabalho reconhecido como um estilo.

Com isso, comecei a entender também que a maioria das pessoas que me acompanhava não era designer. Eram pessoas que, de alguma maneira, começaram a se conectar com aquelas coisas que eu escrevia nos meus letterings. Não tinham nada a ver com grid, a fonte da época ou a paleta de cores dos sonhos.

A grande maioria dos projetos que fiz são de lettering, mas minha forma de lidar com isso, com a técnica, é bem secundário. A mensagem é o que importa. Deixei essa perspectiva crítica um pouco de lado, pois pra mim vale muito mais passar a mensagem da forma a mais expressiva, bem-humorada e política possível.

Pelo que eu vejo no cenário dessas marcas, hoje em dia ficou muito fácil ver quem é de verdade. Tá todo mundo em alerta, mais esperto, dando voz a outros tipos de pessoas e podendo conferir o que aquela marca que você consome tem a dizer sobre os assuntos que te dizem respeito. Não adianta fazer uma campanha com uma ideia maravilhosa, cara, cheia de layout bonito e, na prática, não cumprir o que promete.

“Pelo que eu vejo no cenário dessas marcas, hoje em dia ficou muito fácil ver quem é de verdade. Tá todo mundo em alerta, mais esperto, dando voz a outros tipos de pessoas e podendo conferir o que aquela marca que você consome tem a dizer sobre os assuntos que te dizem respeito.”

Para exemplificar: uma coisa que eu faço muito são stickers. E essa é uma demanda na qual você precisa ser objetivo em passar a mensagem, eliminando tudo o que não é necessário. É assim que eu lido com as demandas. Tento ver de que forma a mensagem pode ficar cada vez mais clara, para que impacte o maior número de pessoas possível. Também devo acrescentar que, apesar de serem clientes grandes, não faço trabalho para todos que aparecem.

Sou uma bicha preta no Design falando sobre sexualidade, gênero e representatividade de uma forma bem-humorada e acessível, mas que não tá aqui só para falar sobre isso! Posso chegar e falar sobre… futebol! Mas do meu jeito, usando as minhas próprias referências. Penso que as marcas estão mais abertas a essa perspectiva, a ouvir outras formas de expressão sobre os mesmos assuntos de sempre — que eram tratados pelo mesmo tipo de pessoa e com as mesmas soluções.

Poster para Hellow Festival, um dos maiores festivais do México. Veja mais

No seu site, você escreve que prefere oportunidades em que pode usar design como uma ferramenta para falar sobre assuntos pelos quais você se importa, como cultura negra, tópicos sobre gênero e direitos LGBTQIA+. Poderia falar sobre isso?

Quando mais novo, sempre me foi apontado que ser do jeito que sou era motivo de vergonha. Ser viado, não poder deixar o meu cabelo crescer; gostar de Sandy & Junior sendo homem, gostar de vestir as coisas que eu visto, ler o que eu leio, fazer o design que eu quero fazer. E, por muito tempo, acreditei que essas coisas poderiam me atrapalhar profissionalmente.

Tendo noção do meu privilégio de poder fazer isso hoje, entendo que colocando quem eu sou lá, grandão, pra todo mundo ver, me poupo de experiências traumáticas. Eu e o cliente partimos do mesmo ponto. A partir do momento em que você me contrata, sabe quem eu sou, em que eu acredito e quem eu defendo. Acaba sendo um filtro para clientes preconceituosos e racistas.

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