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Cacá Barabás

“Estar em uma empresa de produto é, de fato, se colocar no lugar do consumidor. Não que a Publicidade não faça isso, mas trabalhar internamente e falar diretamente com os clientes faz com que a gente crie um respeito imenso por quem está do outro lado.”

Como iniciou seu interesse por design?

Eu sempre fui uma pessoa muito inquieta. Lembro que durante minha adolescência, momento que pensava nas minhas escolhas de vida e profissionais, um dos meus maiores medos era ter uma rotina de trabalho parada, monótona. De ter tarefas que fossem sempre as mesmas, com a mesma fórmula.

Queria trabalhar com algo que me desse a oportunidade de criar coisas e não ter algo pré-estabelecido ou imposto. Inclusive, acredito que a grande maioria dos que trabalham com criação, em qualquer área criativa, tem uma certa revolta com aquilo que tentam determinar e pré-estabelecer. Parece que a vontade de mudar e fazer diferente sempre vai falar mais alto.

Cacá Barabás

No ensino médio, nas aulas de informática, tive o primeiro contato com o Photoshop. Odiei. Aquilo não era pra mim. Jornalismo ou algo que me levasse a escrita parecia, na época, fazer mais sentido e ser minha paixão. Resolvi dar mais uma chance ao programa que me aguçava e deixava um tanto curioso. Comecei a pegar o jeito, entender a interface e todo sistema de layers. Pronto! Era isso: paixão à segunda vista. Eu queria ser designer e diretor de arte. Publicidade e Propaganda pareceu ser o curso mais interessante e completo na época, onde eu teria contato não somente com pensamento visual, mas com as demais áreas que permeiam o ambiente criativo.

Após 4 anos, entrando na Wieden+Kennedy, tive um contato mais sólido com o design gráfico. As campanhas ali tinham uma cara mais gráfica, o que me influenciou muito. Entrar em contato com o mundo editorial que me apresentaram, com os estudos de tipografia, diagramação e sistemas de grids mudou minha forma de pensar. Esse era o tom que queria trazer aos meus projetos e campanhas.

Esquerda: design editorial de Bud & Barbecue (Africa DDB). Direita: projeto gráfico para Cajazeira, uma novela sobre o sertão no Nordeste brasileiro.

Muito bom poder conhecer essa perspectiva da sua história, pois justifica sua trajetória profissional com passagem por agências tradicionais e bem conhecidas da Publicidade. Mas o que te fez migrar para o Nubank e quais os desafios que você lida diariamente por lá?

Migrar para o Nubank foi umas das boas surpresas de 2019. Uma movimentação que, apesar de acreditar que em algum momento da minha trajetória iria acontecer, pensei que seria algo mais para o futuro. Eu acredito que os principais motivos desta mudança foram experimentar um novo modelo de trabalho e ter contato com profissionais de Branding e outras áreas do design digital como UX e interfaces. E de fato há uma troca muito rica ali. O design é um dos pilares do Nubank e é incrível fazer parte de uma empresa que nasceu respeitando, valorizando e vendo isso como uma ferramenta poderosa para mudar a vida das pessoas. Criamos e executamos nossas campanhas e projetos de brand design internamente, no Creative Lab. Um lugar que rola muita experimentação e testes. O “Lab” não é à toa, pois é realmente um ambiente que funciona como uma espécie de laboratório e fazermos o que acreditamos.

Direção de arte de Nubank Offsite Draws.

Acredito que o meu maior desafio tem sido criar coisas diferentes para um único cliente. Fazer projetos diferentes o bastante para diversificar a marca, mas que tenham coerência e coesão entre si. Um objetivo/desafio pessoal ali dentro é explorar ao máximo diferentes linguagens visuais e abrir caminhos para uma marca que nasceu há pouco tempo.

Direção de arte e exploração de linguagem visual para o Nubank.

Colocando lado a lado, o que você diria que é a principal diferença entre Publicidade e uma empresa de produto?

Estar em uma empresa de produto é, de fato, se colocar no lugar do consumidor. Não que a Publicidade não faça isso, mas trabalhar internamente e falar diretamente com os clientes faz com que a gente crie um respeito imenso por quem está do outro lado. Ver e entender a fundo os problemas reais para que o serviço prestado, seja no app ou numa mensagem de uma campanha, realmente melhore a vida e crie um vínculo e identificação forte com a marca.

E design talvez seja a principal diferença. E quando digo isso não estou me referindo a algo estético ou visual, mas à um método, uma metodologia. As agências ainda enxergam o design somente como produto final, como algo puramente estético. Enquanto uma empresa de produto (no caso, Nubank) o coloca em toda parte do processo de trabalho, desde a entrega do briefing até o contato dos clientes.

“E quando digo isso não estou me referindo a algo estético ou visual, mas à um método, uma metodologia. As agências ainda enxergam o design somente como produto final, como algo puramente estético. ”

Esquerda: exploração de linguagem visual para materiais interno do Nubank. Direita: projeto de rebranding para BTG Pactual (F/Nazca Saatchi&Saatchi)

Você diria que design é mais sobre sentir que algo está certo ou existe regras que qualquer pessoa poderia aplicar a ponto de conseguir um resultado final refinado?

Eu acredito que o design é muito mais sobre sentir quando algo está certo. Por mais que esteja obedecendo regras e conceitos básicos que qualquer um poderia aplicar, se não envolve, não conversa com a mensagem/conceito, muito provável que não solucione o problema que deveria solucionar. Essa é uma questão um tanto subjetiva, e é interessante o fato de algo estar certo e bom, mesmo quebrando e “desrespeitando” algumas regras. E quem sabe o charme esteja nisso: em uma quebra de expectativa e na procura do improvável.

Há uma frase do Paul Rand que representa bem essa subjetividade envolvida no design: “Alguns pensam que é a gravata do pai. Outros pensam que é a camisola da mãe. Outros ainda acham que é o tapete da sala. Outra pessoa está pensando que é o papel de parede do seu banheiro...”. Para cada um é algo diferente, porque temos experiências de vida diferentes e consequentemente referências diferentes.

Sempre que finalizo alguma arte ou algum projeto, vejo se a composição e conjuntos estão agradáveis, sempre me colocando no lugar do receptor. Quando sinto que cheguei a um resultado que converse com o conceito e estou satisfeito e confortável com aquilo, perfeito.

"Sororidade Rosa", projeto gráfico para o movimento da Fundação Laço Rosa (F/Nazca Saatchi&Saatchi)

Seu perfil pessoal de Instagram contém uma seleção interessante de fotografias que você mesmo faz. Você acha que conceitos de estética de design gráfico tem relação com a composição fotográfica?

Eu acredito que tem total relação. Muito do estilo gráfico de direção de arte eu tento aplicar na fotografia, como explorar enquadramentos diferentes, deixar a mostra somente uma parte da foto ou criar uma composição interessante de cores. Acaba sendo um estudo que gosto de fazer. Paleta cromática, grid, linhas de força e movimento são conceitos de estética do design que também são aplicáveis a fotografia.

Fotografias e explorações visuais para viagem pessoal no deserto de Atacama (Chile).

Acho interessante como a utilização da foto em determinada peça impacta diretamente na construção visual. Dependendo do estilo da fotografia, a diagramação pode mudar completamente. As fontes podem ganhar uma nova cara e personalidade. As cores, um novo significado. Como se um elemento fosse influenciando diretamente no outro. E, de fato, influencia. Tudo é relação.

“Acho interessante como a utilização da foto em determinada peça impacta diretamente na construção visual. Dependendo do estilo da fotografia, a diagramação pode mudar completamente.”

Quais são suas maiores inspirações?

Difícil listar tudo que me inspira. Não consigo colocar um designer, estúdio ou projeto específico como fontes principais de inspiração, pois sou uma pessoa que vive de fases. Hoje, por exemplo, trabalhos editoriais ou que seguem uma linha e pensamento editorial tem me atraído mais. Tenho prazer em ver projetos com um acabamento refinado, tipos de papéis e materiais impressos. Tento ser o mais eclético possível e trazer coisas de fora do universo do design gráfico para o meu trabalho. Estar em exposições, livrarias, museus e feiras, além de me deixarem empolgado, me inspiram demais e agregam muito ao meu dia a dia.

Tudo aquilo que me desperta curiosidade, chama a atenção e traz um fascínio, de certa forma já considero como uma fonte de inspiração. Viagens também são fontes de inspiração, algo que vi como essencial para a evolução do meu trabalho. O desprendimento da rotina e o contato com outros lugares foram essenciais para o meu desenvolvimento pessoal e profissional.

"Nubank Reivente", exploração de linguagem visual para o Nubank.

E qual é sua maior aspiração, como pessoa e como profissional?

Minha vida pessoal está muito ligada ao profissional. Tudo aquilo que vivencio, de alguma maneira, impacta nos meus projetos. É difícil dizer aspirações diferentes, sendo que os dois lados andam juntos e isso no melhor sentido de todos.

Acredito que futuramente (e isso no longo prazo) dar início a um escritório/estúdio que tenha o design como algo estratégico para somar valor às marcas, aos seus produtos e serviços, sempre tendo em mente a criação de um design acessível, para impactar positivamente a vida das pessoas e da sociedade. Um grande desejo que tenho é passar o conhecimento pra frente, pois assim como muita gente me ajudou, ouviu, e recebeu, tenho o objetivo de retornar isso para os que estão começando.

Veja mais do trabalho
de Cacá Barabás.
cacabarabas.com

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